clipping: teatro em cena | 03/05/2016

Crítica: Não Vamos Pagar! – Teatro Sesi Centro

resenha-4estrelas

Crise econômica. Inflação. Dificuldade para fechar o mês. Defesa de interesses de classe. Ética. Protesto. Polícia. “Não Vamos Pagar!” (Non Si Paga! Non Si Paga!), comédia de Dario Fo com direção de Inez Viana (de “Meu Passado Me Condena”), é um espetáculo que conversa muito bem com o panorama nacional atual, apesar de escrito na Itália nos anos 1970. Sua atualidade proporciona uma espécie de catarse ao público, que se vê nas mesmas condições financeiras dos personagens e fantasia em aderir às mesmas escolhas. Prova disso são os aplausos efusivos, com muita vontade mesmo, ao fim da apresentação.

(Foto: Omar Salomão)

(Foto: Omar Salomão)

Tudo começa quando uma mulher vai ao mercado fazer compras e se depara com mais um aumento nos preços. “Eles cobram o que querem”, revolta-se. As donas de casa, então, se unem em uma manifestação por preços justos e, por fim, se rebelam ao ponto de saquear o mercado: enchem as bolsas com tudo que veem e saem sem pagar. A plateia conhece essa história a partir da protagonista Antônia, que, desempregada, não consegue pagar as contas há cinco meses e recorre à ajuda da amiga Margarida para esconder as bolsas abarrotadas de produtos. Seu marido, extremamente ético, prefere morrer de fome a roubar. A partir disso, para não ser descoberta por ele e nem pela polícia, que investiga todas as casas do bairro, Antônia arrasta Margarida para uma corrente de mentiras e situações hilárias. É engraçada a crítica que se faz a partir disso: uma simples ida ao mercado pode causar uma série de problemas na vida de uma pessoa.

O texto do italiano Dario Fo é muito rico de inserções políticas e reflexões marxistas, que aparecem de maneira palatável e são recebidas conscientemente pelo público. Essa peça já foi montada em mais de 30 países e é interessante como parece tão local, sem necessidade de qualquer referência ao noticiário. O cenário, por exemplo, é formado em grande parte por aquelas tábuas de madeira que isolam canteiros de obra – algo com que os cariocas não poderiam estar mais habituados. A iluminação também se apresenta parcialmente como elementos de cena.

A história gira em torno das peripécias de Antônia e Margarida, vividas por Virgínia Cavendish (de “Hedda Gabler”) e Elisa Pinheiro (de “El Pánico”). Os maridos de ambas são interpretados respectivamente por Guilherme Piva (de “Todas as Coisas Essa Viagem”) e André Dale (de “Peça Ruim”). Todos têm muita sintonia em cena, em diálogos rápidos e muito dinamismo. Mas o grande destaque fica para Zéu Britto (de “Decameron”), com papeis secundários. Ele é o maior provocador de risadas em cena. Um dos seus personagens é um policial comunista, que é contra o sistema e só aderiu à profissão porque precisa trabalhar. É interessante também a opção de botar tantos pensamentos políticos na boca de um policial de ideias subversivas.

A aproximação com a plateia também se dá pelos figurinos, ordinários. O cômico é ver como os personagens se metem em situações inusitadas pela necessidade de comer. Alguns desdobramentos são da ordem do absurdo, mas o público compra as piadas. Os homens chegam a comer sopa de alpiste e carne homogeneizada para cães em determinadas cenas. Tudo é movido por essa necessidade vital de se alimentar, em meio à falta de dinheiro. A direção de Inez Viana, que imprime muita agilidade, capta bem o ritmo de vida contemporâneo e ajuda a potencializar a temática. Você sai do teatro com a impressão de que, a qualquer momento, pode acontecer uma revolta de donas de casa em um supermercado qualquer. Com razão.

Por Leonardo Torres
Pós-graduado em Jornalismo Cultural e mestrando em Artes Cênicas.

(Foto: Omar Salomão)

(Foto: Omar Salomão)

Ficha técnica
Idealização: Virginia Cavendish
Autoria: Dario Fo
Tradução: José Almino
Direção: Inez Viana
Elenco: Virginia Cavendish (Antônia), Guilherme Piva (João), Elisa Pinheiro (Margarida), George
Sauma | André Dale (Luís) e Zéu Britto (sargento, capitão e pai).
Stand in: Luisa Arraes (Margarida)
Iluminação: Renato Machado
Direção musical: Ricco Vianna
Figurino: Juli Videla
Cenário: Omar Salomão
Cenotécnia: André Salles
Operação de luz e som: Jorge Maciel Filho
Camarim e contrarregragem: Marcelo Gomes e Cedelir Martinusso
Design gráfico e fotos de divulgação: Omar Salomão
Assistência de direção: Luis Antonio Fortes
Assistência de figurinos: Alessandra Padilha
Assistência de produção: Bruno Fagotti
Produção executiva | Direção de produção: Virginia Cavendish
Realização: Casa Fortes Produções

_____
SERVIÇO: qui e sex, 19h30; sáb, 19h. R$ 34. 60 min. Classificação: 16 anos. Até 14 de maio. Teatro Sesi Centro – Avenida Graça Aranha, 1 – Centro. Tel: 2563-4163.

Leave a Comment